Então é isto:
“Aqui jaz quem daqui tanto escapou
Que só agora não escape mais”.
Ele estava deitado de bruços, respirando pausadamente, os pulmões enchendo-se de ar debaixo dos seus quase 100 quilogramas. Mantinha os olhos abertos, apesar das ordens a fim de que os fechasse: sustentava a guarda levantada, tentando enxergar, com os cantos dos olhos, o que acontecia as suas costas. Os braços pendiam, um a cada lado da cama de solteiro, as pernas haviam sido afastadas, o suficiente para que uma mulher pequena coubesse no vão entre elas. Havia uma Mulher Pequena no vão entre elas. Ambos estariam nus, não fosse pelo avental desatado que a Mulher Pequena vestia.
A cena descrita inseria-se no Universo pelo simples motivo de que se passava em determinado lugar, em determinado espaço de tempo: um quarto pequeno, um dia de verão. O quarto contava com uma janela sem cortina, um armário, uma mesa… poucos objetos pessoais esparramados sobre essa mesa, um binóculo, uma caixa de fósforos, um rolo de fita adesiva, um maço de cigarros, um copo com dois dedos d’água; pelo chão, algumas peças de roupa confusas, chumaços de fios de cabelo, pedaços de papel higiênico rasgado. O ambiente estava impregnado por um cheiro misturado de fumo, sabonete e canela.
A Mulher Pequena, sentada sobre as pernas, em meio às pernas dEle, esfregava as mãos uma à outra. Tinha o semblante sério, as sobrancelhas franzidas, os lábios cerrados, aos modos da criança trabalha com massas de modelar na pré-escola. Enquanto a Mulher Pequena certificava-se de que o óleo aromático versão canela era bem aquecido entre as palmas de suas mãos, Ele conservava a mesma posição e a mesma atitude inquieta e curiosa de bisbilhotá-la com os cantos do olhos. Então ela resolveu falar.
- O senhor pode fazer o favor de relaxar, ou seria pedir demais? Acredito que o senhor tenha compreendido que meu trabalho, além da massagem, engloba o relaxamento do corpo inteiro do cliente… in-tei-ro, ouviu bem? Feche os olhos.
Ele assentiu. Fechou os olhos. Permaneceu imóvel durante três minutos, contou mentalmente, 180 segundos.
Lambuzadas de óleo, as mãos dela foram de encontro às omoplatas dEle, chocando-se com estrondo de tapa úmido. Ajoelhou-se no colchão, avançou dois passos com os joelhos, ajoelhou-se sobre a grande bunda desprovida de pêlos que Ele ostentava em toda sua magnitude, deitado de costas.
Então Ele moveu a língua.
- Ligia. Ligia. Pare com isso. Pare com isso.
Ao que ela respondeu, debruçando-se, minúscula, sobre Ele, encostando a boca em sua orelha direita.
- Por favor, senhor, sou uma profissional. Se o senhor não colaborar com meu trabalho, serei obrigada a utilizar um grande pedaço daquela fita ali, ó, e coagi-lo a colaborar. Sejamos razoáveis.
Ele permaneceu quieto, e a Mulher Pequena retomou os serviços. Deslizava as mãos pela carne macia, revestida de gordura, do corpanzil dEle. Massageava, afundava os dedos em movimentos circulares, esfregava com vigor a pele branca do homem despido. Começou pela nuca, lentamente desceu até os ombros, pressionou com força à procura de nódulos, espalhados em cada centímetro quadrado daquelas costas enormes. Avançou até a cintura, na qual cravou as unhas e arranhou, até o início do rego dEle.
- Ligia. Devolva minhas roupas.
Ele moveu-se rapidamente, rodopiando a metade superior do corpo para poder encará-la. Ela ainda tinha as sobrancelhas franzidas, mas desta vez aos moldes de uma mãe que repreende o filho teimoso.
- Será assim? O senhor não respeitará as normas estritas que regem a constituição e respaldam a qualidade do meu trabalho?
- Ligia, chega.
- Mas o senhor pagou por uma massagem oriental que dura cerca de duas horas e meia!
- Ligia, por favor.
- Assim não é possível.
A Mulher Pequena levantou-se, desatou a rir, foi até a mesa, pegou o rolo de fita adesiva, procurou a ponta perdida da fita transparente, o avental encobria parcialmente seu corpo. Ela ria, sem parar. Desistiu da fita.
- Como você é sem graça!
- Realmente não encontro graça nesse tipo de infantilidade.
- Okei, okei. Me deixe cheirar os seus cabelos.
A Mulher Pequena aproxima-se, fica de pé, ao lado da cama. Ele, sentado, recebe em cheio no braço molengo o contato da pelve feminina, seu calor e seus pêlos. Ela enlaça-o pelo pescoço, Ele sente seu cheiro de sabonete, ela abaixa um tanto o rosto, escosta o nariz na massa espessa dos cabelos dEle.
- Camomila, mas você não lavou direito.
Ela abre a boca e finca os dentes no couro cabeludo do homem, que tenta repeli-la, não sem delicadeza. Como ela não alivia a pressão da mordida, Ele procura com os dedos os pentelhos dela; encontrando-os, puxa-os com força, arrancando alguns. Seu pau enrijece.
- Caralho! - Ela imediatamente solta a cabeça dele.
- Ligia.
- Seu filho da puta desgraçado! - Ela berra ao ouvido dEle, atirando-se em seu colo.
Ele procura, mais uma vez, os pentelhos da Mulher Pequena com os dedos, mas não os puxa. A Mulher Pequena, com a mão em concha, já livre de qualquer dor, afaga o saco dEle, suavemente.
- Uma vez minha mãe me disse que eu nunca aguentaria um homem em cima de mim. Vou perder a virgindade com um cara que pesa mais de 100 quilos.
[cortesia de a.a.m.]