É mais ou menos assim. Minha faculdade acabou. E eu não tenho emprego nem muito menos alguma perspectiva para o futuro, mas, mesmo assim, todos os assuntos das revistas de fofocas – e alguns outros – continuam me preocupando mais.
Sabe como é, as pessoas sempre vêm me cumprimentar e parabenizar e tal, falando do suposto grande passo que acabei de dar e sobre todas essas oportunidades do futuro. E eu não tenho absolutamente nada para dizer a elas – e, de fato, não consigo imaginar nada-de-nada que possa vir a ser dito sobre o assunto.
E nem é por falta de empenho. Realmente tenho tentado pensar bastante no caso. Não por iniciativa própria nem nada, claro… mas me falaram sobre isso com tanta convicção, que resolvi que seria o mínimo dar uma chance à questão.
No entanto, como já era de se esperar, a única conclusão à qual cheguei foi a de que não tenho mais de acordar cedo – e nem perder seis horas semanais na faculdade e nem me encontrar com meus coleguinhas e nem perder dez minutos andando até a parada de ônibus. E isso é pura e simplesmente lindo.
Mas minha mãe tem uma outra opinião. Ela diz que tenho de começar a me preocupar com o futuro, investir nas coisas certas e cultivar os contatos que farão de mim um bilionário. E por quê? Porque semana que vem pode acontecer de toda minha família ficar desempregada ou morrer de câncer e eu – eu mesmo – me ver transformado na minha única esperança. Ou alguma coisa assim.
Como se pode ver, otimismo é uma qualidade que apenas eu cultivo dentro da família.
Contudo, o que certas pessoas andam desconsiderando é que eu tenho um plano. Tenho sim – inclusive, diga-se de passagem, eu sempre tenho um plano.
A princípio, meu plano era tirar todos os próximos doze meses de férias e empurrar as demais coisas para o final do ano que vem. Mas, depois de muito pensar, resolvi desistir desse plano. De uma maneira muito básica ele foi inviabilizado por motivos morais e éticos – até porque, verdade seja dita, já estou em férias há pelo menos uns seis anos. E daí que mudei de plano, claro. Meu plano agora é passar os próximos doze meses em férias relativas.
Basicamente, minhas pretensões se resumem a arranjar um emprego inacreditavelmente estúpido e passar todo o meu período de labuta diária pensando bobagens – e todo o restante jogando videogame, comendo, dormindo e vendo porcarias na TV.
Mas – e esse aqui é nosso verdadeiro ponto – o que viria a ser um emprego inacreditavelmente estúpido?
Assim… eu sempre tive esse sonho de ser zelador de necrotério. Passar todas as madrugadas cercado de mortos, lendo pornografia e dando em cima das enfermeiras que, de hora em hora, descem até o meu necrotério pra trazer as novas entregas – e, melhor de tudo, só precisando abrir uma gaveta a cada vez que quiser ver gente pelada.
Entretanto, não acredito que esse seja um emprego estúpido o suficiente. Seria, realmente, muito bacana realizar esse sonho – e com toda a certeza do mundo não seria eu a pessoa a dizer não se a oportunidade surgisse. Mas também não acho que trabalhar em um necrotério seja estúpido o suficiente para as pessoas simplesmente não conseguirem acreditar.
Da maneira como vejo, um emprego realmente dos sonhos seria trabalhar como zelador de zoológico. Passar os dias todos vigiando crianças para garantir que elas não sejam almoçadas pelos leões ou jibóias.
Ou, melhor ainda, trabalhar como zelador noturno de zoológico. Que sonho rapaz… de uma maneira nem um pouco resumida, minha única função seria impedir que os vândalos virgens da cidade fizessem incursões noturnas até o meu zoológico na intenção de sodomizar as raposas e girafas – ou, num quadro mais plausível, resistir à tentação de eu mesmo ir lá cutucar as pobres coitadas.
Ou, desenvolvendo um campo completamente diferente, conseguir a vaga de responsável pela manutenção de todos os hidrantes da cidade.
Porque, tenho dito, isso sim é que seria uma carreira pra toda a vida.
[cortesia de a.a.m.]