“Não vai ser eu a escrever sobre a morte pra vocês ficarem pensando: ‘Nossa! Ele entendeu toda a dor blablablá!’ Não! Vão à merda!”
Ele fora chamado para um seminário de literatura, no qual falaria de suas influências, idiossincrasias, etc.
Naquela tarde, descobriu que tinha uma doença séria. Os médicos, que nunca agem de modo passional, foram precisos no diagnóstico: “Você precisará se tratar e terá grandes chances de viver.”
Sua mulher, que adorava os presentes que um esteta rico e de pau grande pode proporcionar, acabara de ter uma filha, a qual chamaram de Lúcia.
Como escritor, ele tinha um número ilimitado de livros e receitas, das quais, dia-a-dia, tentava se desvencilhar. Não que acreditasse no novo, mas simplesmente se impacientava com a idéia de saber o próximo passo. Sua idéia de novo era menos movida pelo espírito de coletividade histórico-literária que um solipsismo engendrado na infância.
Hoje é um dia da sua infância. São 4h da tarde e este garoto desenha com um lápis um labirinto. Mostra uma grande habilidade com a régua e com o compasso. Seu labirinto exibe admiráveis círculos, dentro dos quais ele dispõe galerias semelhantes aos cômodos de sua casa. Não que ela fosse grande ou complexa, disso ele sabia, mas acreditava que a obviedade, colocada em proporções matemáticas, infinitas, criaria um universo mais difícil [e não podemos deixar de pensar numa mínima coerência de tal pensamento] para a saída do pequeno tatu-bola. Não o mamífero, mas o crustáceo. Perguntara um dia à mãe: “Mãe, que bicho é esse?”. Ela, por sua vez, perguntou ao seu pai, pequeno fazendeiro, que, aproveitando a oportunidade, lhe contou de uma lenda na qual, anos atrás, nos tempos se seus avós, a propriedade fora invadida por “um enxame de tatus-bolas.” Mais tarde, tal história serviu de inspiração ao nosso escritor, no conto: “A hora é dos tatus-bolas”, incluído no livro “Um Urubu Não Faz Verão”.
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Certamente, quem leu tal relato, pensará uma série de incongruências que há nele, as tantas lacunas deixadas que não criam nem um viso de verdade. Tal suposição não é falsa, eu mesmo não sei como chegamos a tal ponto. Mas não estragaremos este breve relato com uma chave para o fechamento. Acreditemos apenas na angústia, e por que eu tentarei encontrar uma melhor palavra, desse escritor que está sendo levado até seu carro.
[cortesia f.n.]