
Quando minha mãe resolveu participar da indústria pornográfica, eu achei, como qualquer ser humano, um absurdo. No dia seguinte, descobri que era pra indústria geriátrica. Certo, ela sabia o que se passava nos bastidores das mentes daqueles bons velhinhos, os quais sempre me foram gentis em sua lentidão, suas boas e longas histórias, algumas sem nexo, mas nem por isso menos interessantes.
Esqueci: minha mãe era diretora de um estabelecimento que cuidava de pessoas na boa idade. Eu fazia trabalho voluntário todas as quartas no fim da tarde, depois da faculdade. Aprendi muito com aqueles velhos. Porém, quando minha mãe anunciou tal decisão, passei a detestá-los a ponto de querer chutá-los nas paradas de ônibus, tinha ânsia de empurrá-los pra faixa de segurança, de esfregar a baba deles nos rostos enrugados.
- Você sabe o quanto irá ganhar?
- Meu filho, – prestem atenção na resposta da minha mãe: - o dinheiro não é o mais importante nessa vida, sabia?
Minha mãe era respeitada no meio acadêmico, dera aula na faculdade de medicina durante 12 anos, no quais foi aclamada (pelo menos é o que dizem…) Contudo, sempre achei que sua realização pessoal estava na administração daquela casa geriátrica. Mas não, mamãe também tem sonhos. Mamãe era boa, cuidadosa comigo. Com todos.
Ela percebera o seguinte, os idosos ainda viviam no mundo real. Observação leviana? Não. Minha mãe acreditava que a melhor forma de ajudar o idoso era tratando-o como um ser do mundo real, e não como um abobado que só joga a bola pro colega velho que nem pegar consegue.
Eu sabia que os maiores problemas dos idosos eram: imobilidade, insuficiência cognitiva, iatrogenia, instabilidade e quedas, incontinência, delírio, demência e depressão. O que ela queria? Atacar o mal pela raiz. Apresentou seu projeto num congresso na Espanha, um plano de melhoria de vida para os velhos, o qual foi aplaudido. Em vez de assistirem as idiotices da TV, veriam filmes pornôs.
Bem… não veriam qualquer tipo de filme pornô. Os filmes teriam um contexto pensado, um tratamento pra eles, velhos. Haveria um esforço em definir as montagens de cena. Cenas adequadas para velhos! Isso não só para ajudar a depreensão cognitiva da parte dos idosos, como também para colocar em cena suas fantasias, seus desejos. Dessa forma, deixaria a cabeça dos babões funcionando, como as nossas.
Mas não era qualquer atriz quem poderia contracenar e pensar a obra. Não era pornografia, na verdade, nem arte, mas saúde. E isso me dava agonia.
Quando explicou – depois da milésima conversa – que fazia aquilo pelos velhos, tive vontade de gritar, mas minha mãe me ensinou a ser contido. Tentei conversar. Porém, no fim, gritei. Mandei minha mãe se foder. Virei as costas rumo ao meu quarto. Lá, atentei à ambigüidade. Ela disse do outro lado da porta, sem gritar, que não se importava com que eu visse os filmes.
Depois dessa frase, resolvi esquecer o assunto, mas não teve como.
Certo dia, sete meses depois, na clínica onde eu trabalhara de voluntário, os velhinhos estavam assistindo a um filme fora do catálogo que lhes era dado. Um filme contrabandeado por um dos enfermeiros. Minha mãe pediu demissão.
[cortesia de f.n.]