Estava tomando um copo d´água e ouvi um estrondo. Detesto essas ocasiões. Detesto (1) porque é a chegada do extraordinário e (2) porque tenho pouco tempo em reportá-lo.
Não que o tempo esteja acabando. Ou melhor, está. Há este reloginho no meio das pernas que me irrita e… E mais uma frase e tudo isso será tachado de enfadonho.
Caminhei até a porta, sorvendo minha água. Quando abri, um pedaço de copa de árvore entrou sem convite prévio. Nenhum fato insólito, pensei, olhando para a rua. Talvez a falta de vento, a falta de um lenhador, ou até mesmo de um simples idoso vândalo.
Peguei o telefone e liguei para alguém:
- Por favor, você poderia tirar a árvore que caiu dentro da minha casa.
- Engano.
- Por favor, você poderia tirar a árvore que caiu dentro da minha casa.
- Não quero.
- Por favor, você poderia tirar a árvore que caiu dentro da minha casa.
- Sem dúvida
Enchi o copo d´água e esperei. A falta de sentido me irritou.
Estou irritado. Foi a primeira coisa que disse ao homem que chegou. Eu não, ele respondeu, mas me dê sua mão. De mãos dadas pisamos na árvore.
- Pronto, senhor.
- Aceita um copo d´água, perguntei ao homem gentil.
- Tenho que ir.
Acompanhei-o até a rua.
[cortesia de f.n.]